
A manchete é forte e circula periodicamente na internet: psiquiatras teriam classificado o ato de tirar muitas “selfies” como um novo transtorno mental, apelidado de “selfitis”. A ideia de que um hábito tão comum poderia ser uma doença oficial gera alarme e curiosidade. No entanto, é crucial esclarecer os fatos: nenhuma associação psiquiátrica global, como a que publica o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), reconhece a “selfitis” como uma condição clínica real. O termo surgiu em uma notícia falsa e, embora depois tenha sido estudado academicamente, ele não é um diagnóstico.
O que os especialistas e psiquiatras afirmam, na verdade, é algo mais complexo e igualmente importante. Eles alertam que, embora o ato de tirar uma selfie seja inofensivo, a obsessão por elas pode ser um sintoma visível de transtornos mentais subjacentes e bem reais. A preocupação não está na foto em si, mas na compulsão, na motivação por trás dela e no impacto que esse comportamento tem na vida de uma pessoa. Entender essa diferença é fundamental para separar um hábito moderno de um sinal de alerta para a saúde mental.
O Espelho Digital: Selfies e o Transtorno Dismórfico Corporal
Uma das conexões mais diretas que preocupam os especialistas é entre o excesso de selfies e o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). Pessoas com TDC têm uma preocupação obsessiva com um ou mais defeitos percebidos em sua aparência, que para outros são mínimos ou inexistentes. O smartphone, com sua câmera frontal, funciona como um espelho de bolso 24 horas por dia, permitindo uma checagem e análise incessantes da própria imagem, o que pode agravar drasticamente os sintomas do transtorno.
A capacidade de tirar dezenas de fotos em busca do ângulo perfeito, somada aos filtros e ferramentas de edição, cria um ciclo perigoso. A pessoa pode passar horas tentando alcançar uma imagem idealizada e inatingível, aumentando a frustração e o ódio pela própria aparência real. Nesse contexto, a selfie não é uma forma de expressão, mas uma ferramenta de tortura autoimposta, onde cada foto serve para confirmar a percepção distorcida que a pessoa tem de si mesma, aprofundando o sofrimento.
A Busca por Validação: Narcisismo e Baixa Autoestima
A motivação por trás do excesso de selfies pode vir de dois extremos opostos do espectro da autoestima. De um lado, pode estar associada a traços de personalidade narcisista, onde o indivíduo tem uma necessidade grandiosa de admiração e usa as selfies para exibir sua aparência, status e estilo de vida, buscando validação externa para reforçar seu senso de superioridade. A plataforma social se torna um palco para a autoexaltação, e os “likes” funcionam como aplausos para a sua performance.
Do outro lado, e de forma muito mais comum, a compulsão por selfies pode ser um sintoma de uma autoestima extremamente baixa. Nesse caso, a pessoa não busca admiração, mas sim uma confirmação básica de que é aceitável ou bonita. O valor pessoal fica diretamente atrelado à quantidade de curtidas e comentários positivos que uma foto recebe. Uma selfie com baixo engajamento pode desencadear sentimentos de rejeição, tristeza e inutilidade, criando uma dependência perigosa da aprovação alheia para a própria felicidade.

Quando o Hábito Vira uma Compulsão: O Ciclo da Adicção
Assim como em outras dependências comportamentais, o ato de postar selfies e receber feedback pode criar um ciclo de recompensa no cérebro. Cada notificação de curtida libera dopamina, o neurotransmissor do prazer, gerando uma sensação boa e fazendo com que a pessoa queira repetir a ação. Com o tempo, o cérebro pode se acostumar, exigindo cada vez mais estímulo (mais fotos, mais curtidas) para obter a mesma sensação. É nesse ponto que o hábito se torna uma compulsão, com características clássicas de uma adicção.
Os sinais de que o comportamento se tornou problemático incluem: passar uma quantidade excessiva de tempo tirando e editando fotos, sentir ansiedade ou irritabilidade quando não consegue postar, negligenciar responsabilidades ou o contato humano real para se concentrar em sua imagem online e, principalmente, continuar com o comportamento mesmo sabendo que ele causa sofrimento. A pessoa deixa de controlar o hábito e passa a ser controlada por ele, priorizando o momento de “capturar” a vida em vez de vivê-la.
Conclusão
Portanto, a resposta à pergunta inicial é clara: tirar selfies não é um transtorno mental. Contudo, a obsessão em torno delas pode, sim, ser um reflexo de que algo mais profundo não vai bem. É um sintoma moderno para questões psicológicas antigas: a forma como nos vemos, o valor que damos a nós mesmos e nossa necessidade de pertencimento e aceitação. O alerta dos especialistas não é para que paremos de tirar fotos, mas para que observemos nossas motivações com honestidade.
A verdadeira saúde mental não se constrói com a validação de um clique, mas com o cultivo de uma autoestima que independe de filtros e da aprovação alheia. A chave é usar as redes sociais como uma ferramenta de expressão e conexão, e não como um espelho para medir nosso valor. Quando a alegria de viver o momento se torna maior do que a necessidade de registrá-lo, encontramos o equilíbrio saudável.

Sobre o Autor
Escritora e pesquisadora da saúde mental. Desde sempre, sou fascinada pelo poder das palavras e das pequenas mudanças de perspectiva para transformar o dia a dia. Como uma entusiasta do desenvolvimento pessoal, dedico meu tempo a estudar e compilar ideias que possam trazer inspiração. Busco sempre basear minhas reflexões em fontes diversas confáveis e verificadas para apresentar diferentes perspectivas sobre os temas abordados, com responsabilidade e respeito.